Taguatinga completa 60 anos com motivos para comemorar | CRECI/DF
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Brasília, 18/08/2018

Taguatinga completa 60 anos com motivos para comemorar

De casa dos candangos a ponto importante de comércio, Taguatinga é muito mais do que uma cidade-satélite. Ao completar nesta terça-feira 60 anos, ela acumula história e cultura que passam de geração a geração. O que era para ser apenas um lugar de morada para os que construíram Brasília, hoje vai além da fundação e se afirma como um território diverso, independente e autônomo. Para os taguatinguenses, a região se basta: não é mais preciso se deslocar para o centro da capital em busca de atividades. Segundo a administração, 66% dessa comunidade reside e trabalha na região administrativa.

A placa “Bem-vindo. Aqui evitamos buzinar” recepciona quem chega à cidade pela Estrada Parque Taguatinga (EPTG). Ao visitar a cidade, é possível perceber a movimentação acelerada, como a de uma metrópole. No comércio ativo, é possível encontrar de tudo em pouco espaço. Os restaurantes guardam a diversidade dos gostos: há comida mineira, chinesa e japonesa.

No ramo da educação, concentra, pelo menos, sete centros de ensino superior e 22 escolas públicas. Os espaços culturais servem como palco de música de todos os tipos — do funk ao sertanejo, do rock ao forró. Além disso, há teatros, praças, parques e o famoso Mercado Sul, local de ocupação artística em meio ao concreto da cidade. E até mesmo as feiras de rua mostram que as quadras pequenas têm valor.

Aos poucos, a cidade dois anos mais velha que Brasília cresceu e encantou apaixonados pelo lugar, que não abrem mão de morar ali. No projeto de Lucio Costa, a expectativa era que Taguatinga abrigasse apenas 25 mil habitantes. Em 2016, esse número era de 222.598. Curiosamente, mais da metade (51,09%) é composta por imigrantes, que fizeram do lugar um novo lar. Os outros 47,48% vivem no local há pelo menos 25 anos. Nas próximas páginas, convidamos o leitor a percorrer as ruas de uma cidade independente.

A diversidade nas ruas

Na região, é possível encontrar qualquer coisa. Pelo menos é isso que parece ao chegar à Comercial Norte. Lá, as quadras são separadas por temas: rua das noivas, de roupas e até de materiais elétricos. Mais abaixo, os pavilhões da Feira dos Goianos são ocupados por gente em busca de produtos com preços baixos. O centro dá a vez às lojas de móveis. Na parte sul, clínicas de saúde e restaurantes ganham espaço. Até os cruzamentos das vias Taguatinga dão sustento a quem precisa: uma dupla de vendedores ambulantes que, sem emprego, colocou a melhor roupa e descobriu, no semáforo, como sobreviver.

Bruno Monteiro Santiago e Paulo Silva Oliveira, trabalham no semáforo de Taguatinga Centro, vendendo água e petiscos.

Há cinco meses, o morador do Riacho Fundo 2 Bruno Monteiro Santiago, 20 anos, chega à área central, todos dias, às 6h, para vender água, café, pipoca e balinha. O parceiro de trabalho, Paulo Silva Oliveira, 27, acorda às 4h30 para ir do Céu Azul (GO) a Taguatinga, de ônibus. No cruzamento mais movimentado da cidade, a dupla chama atenção ao empurrar um carrinho entre os veículos, vestidos de camisa social e com bandejas, servindo os clientes com água fresca e café quente. “Antes, vendíamos água de short mesmo. Com a mudança, as vendas subiram e, agora, cada um consegue cerca de R$ 150 por dia”, comemora Paulo.

É na Avenida Hélio Prates que fica um dos prédios mais importantes de Taguatinga. Em 1973, foi inaugurado o Taguacenter. Os quatro pavimentos, revestidos de ladrilhos azuis e laranja, recebem cerca de 100 empresas, que fazem de lá uma das áreas comerciais mais conhecidas.

Ao redor do empreendimento, o que antes era terra, hoje, se tornou um emaranhado de lojas de todos os tipos, com estacionamentos abarrotados. O local está bem diferente do que se lembra Zélia de Azevedo Leite, 65, moradora de Taguatinga há 47 anos. Vinda do Rio Grande do Norte para trabalhar com o irmão em um armarinho, ela se casou e, grávida da segunda filha, abriu a primeira loja no beco onde “tinha muito bar e prostituição”. “Mas nós chamávamos a atenção, as pessoas viam a loja arrumadinha e vinham comprar da gente”, conta.

Em um espaço de 35x10m, o casal começou a vender produtos variados e de perfumaria em 1976. Em 1982, a loja cresceu e, hoje, conta com três andares e 1 mil metros quadrados. Trata-se do Armarinho Novidade, um dos maiores estabelecimentos do lugar e que se enfeita de acordo com a época do ano. “Quando chegamos aqui, o local era valorizado, mas pouco visto. Tinha muito bar e zona de prostituição. Conseguimos reerguer e, hoje, é um dos prédios mais especiais da cidade. Ele dá vida a esse setor. O Taguacenter tem vida própria”,  orgulha-se Zélia.

Cultura e lazer pulsantes

Em meio ao caos urbano, a cidade pulsa cultura. No Pistão Sul, boates, baladas sertanejas e hamburguerias fazem parte do cotidiano. Mas há quem prefira se deslocar para a área norte, onde há bares dedicados ao velho rock ‘n roll. Na Avenida Samdu, há o Mercado Sul, um dos primeiros centros comerciais do DF, construído antes da capital. O lugar ficou abandonado, mas se transformou em reduto cultural. Os três blocos de prédios de dois andares guardam teatro, oficinas de artesanato e de reciclagem, ateliês, brechós e local para empréstimo de bikes.

Para fugir do dia a dia agitado, a programação é extensa. O pavilhão do Taguaparque, tradicionalmente, recebe shows e encontros de todas as tribos. Nas praças, grupos de dança e skatistas fazem do asfalto o palco para apresentações. A 5km dali, o Parque Saburo Onoyama abriga uma piscina. Rodeado de árvores, o espaço também atrai os que gostam de ar livre.

Ainda assim, há espaços culturais que lutam para sobreviver, mesmo após anos de existência. Com 50 anos, há uma loja no centro que encanta gerações de apaixonados por música. A Discodil vendeu vinis, fitas cassete e VHS. Adaptada ao cenário contemporâneo, CDs e DVDs fazem parte do acervo musical do lugar. O disco de ouro pendurado na parede é uma homenagem aos 15 anos de atividade da maior loja de discos do DF, completados em 1982. “Aqui tem o público da época da fita cassete, do vinil. É fiel. Nos anos 1980 e 1990, havia mais movimento, mas sempre está cheio”, diz o gerente Wandermilson Laurindo Queiroz, 48 anos.

A alegria das feiras

Os feirantes de rua dão um toque de nostalgia aos fins de semana. Mesmo as quadras menores da cidade fecham a passagem para os veículos. As ruas ficam ocupadas por barracas que vendem comida, verduras e roupas. Os gritos de promoção são característicos das feiras ao ar livre, que, além de comércio, viraram símbolo cultural.

É com o nascer do sol que elas começam a ser montadas. Primeiro, os ferros e as hastes da base. Depois, as lonas para a cobertura. Nas primeiras horas do dia, chegam os clientes. Os aromas dos temperos tomam conta das barracas. É o Brasil que se transforma em um só canto da cidade.

Também há aquelas feiras que, de tão frequentes, ficaram por ali. É o caso da Feira Permanente, localizada na região da QNL. O lugar mantém as características simples até hoje. As 145 lojas que formam um círculo em torno de um jardim recém-revitalizado aproximam os feirantes e os amigos de longa data. De terça-feira a domingo, das 8h às 18h, o local recebe quem procura frutas, verduras, peixes, queijos e até roupas.

Os mostruários cheios de doces típicos de Minas Gerais chamam a atenção para a banca Delícias de Araxás. Lá dentro, a simpática Sueli Fraga dos Santos, 74, atende clientes há 40 anos. Ela, que mora desde 1962 em Taguatinga, contou que, quando chegou à cidade, precisava buscar água em um tambor. “Aqui na feira era tudo árvore. Nós (feirantes) que arrumamos tudo”, relembra. Carioca, Sueli aprendeu na cidade o que é ser brasiliense. “A minha filha é doidinha para eu ir morar em Águas Claras, mas eu não troco, não”, ri.

Parte da história

Se a história deve ser escrita por quem a vive, Adelaide de Paula Santos pode encher o peito para contá-la. Aos 50 anos, a professora de português relembra aquilo que, um dia, a cidade foi. Na memória, carrega as lembranças de uma juventude que cresceu com a cidade. “Eu morei a minha vida inteira aqui. A gente brincava na rua e só voltava à noite. Taguatinga é a cidade das ruas, das praças, da vizinhança”, afirma.

As recordações a levam de volta, com os amigos, a um bar no centro da cidade, chamado Rola Pedra, atualmente fechado. “Nós vimos as maiores bandas de rock. Lá, tocaram Legião Urbana, quando ainda era Aborto Elétrico, e Capital Inicial”, orgulha-se Adelaide.

De lá para cá, muita coisa mudou. Para ela, as crianças não parecem brincar na rua como antigamente. As pessoas trocaram as bicicletas e as caminhadas por automóveis. E, nos olhos da educadora, a região se autossustenta. “Taguatinga é a cidade do pequeno comércio. E isso tudo é muito próximo da casa das pessoas”, comenta.

A história atravessa as gerações. É o caso de Lucas Rodrigues das Chagas, 16, que estuda no mesmo colégio da mãe. “Ela conta que, no tempo dela, a escola já era boa. Tinha os grupinhos dela também.” Lucas mora em Samambaia, mas acorda às 6h, todos os dias, para estudar na cidade onde a mãe cresceu. “Eu venho para cá desde o primeiro ano do ensino médio. Estou no terceiro. Vim porque disseram que o ensino era melhor aqui”, explica. E, mesmo depois da aula, ele não sai da cidade. Quando os estudos terminam, ele se encontra com os amigos no Taguaparque para jogar futebol. “Aqui tem muita opção de lazer”, conclui.

De mãe para filha

Em uma rua residencial, o silêncio é quebrado pelo burburinho saído dos muros do Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab). A escola, uma das pioneiras, completou 50 anos. Do portão para dentro, as gerações são construídas nos amplos pátios. Hoje, o colégio é o que mais inscreve alunos no Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB) e tem cerca de 3 mil estudantes.

A Taguatinga da juventude de Simone Ribeiro da Mota Lima, 47, era tranquila e vivida nas ruas. No Cemab, a relação com os colegas acontecia basicamente em sala de aula. “Não tínhamos a tecnologia. Então, a nossa relação era muito mais intensa, éramos companheiros. Para ligar na casa de um amigo, tinha de ser no orelhão”, diz. Mas, para ela, tudo era muito passageiro. “Terminávamos a escola e cada um seguia seu rumo. Às vezes, nos encontramos no supermercado”, comenta.

A família de Simone chegou a Taguatinga quando a cidade ainda era um assentamento. “Aqui, os lotes eram grandes, e as ruas, amplas. Mas não tinha muita coisa para fazer, não tínhamos shopping ou barzinho”, detalha. A nova realidade das ruas lotadas não fez com que ela perdesse o encantamento. “Eu adoro esta cidade, acho tudo muito tranquilo. Tem de tudo neste lugar.”

A adolescente cresceu e se tornou professora de matemática do Cemab. Agora, é a filha, Juliane Vitória da Mota Lima, 16, que ocupa as cadeiras que uma vez foram da mãe. Aluna do terceiro ano e com desejo de se tornar arquiteta, a jovem vive em um bairro completamente diferente do que era há alguns anos. “A gente sempre marca de sair para ir ao cinema, tomar um sorvete. A cidade é completa e podemos reunir os amigos fora da escola”, concluiu.

Conquista familiar

A história de Taguatinga se cruza com gerações de famílias que decidiram buscar uma opção melhor de vida. Esse é o caso de Manoel Alves Ximenes, 78 anos, que, ao ver o pai perder a fazenda por causa de uma forte seca no Ceará, desembarcou em uma cidade que era só “mato e barro”, em 6 de novembro de 1959. Pai de oito filhos e com 13 netos, começou a trabalhar como ajudante de marceneiro. “Em pouco tempo, fui convidado a trabalhar em um supermercado que seria inaugurado pelo presidente Juscelino Kubitschek. Depois, virei funcionário público”, afirma. Ximenes também viu na região uma forma de empreender.

Em 1963, comprou a primeira casa própria, onde vive com a família. Com a memória afiada, Ximenes relembra o dia da inauguração da loja familiar. “Foi em 1º de outubro de 1980. Era uma loja de ferramentas quase falida. Trabalhei muito para erguê-la.” E foi na Construmenes Materiais para Construção que ajudou a criar os filhos e os netos. É também onde parte da família trabalha. “Nós temos de 10 mil a 15 mil itens em mil metros quadrados. É um orgulho”, explica.

No passado, a Taguatinga de Ximenes não era asfaltada. As casas de madeira e a população carente lutavam para melhorar cada bairro. “Para comprar pão, tinha de ir ao Jumbo (antigo mercado no centro). Não tinha banco, Correios, nada”, relembra. Bem diferente do que viveu a filha, Elisabeth Ximenes, 48, que trabalha na loja do pai. Ela nasceu no Hospital São Vicente de Paula, hoje Hospital Pronto Atendimento Psiquiátrico (Hpap), estudou no Centro de Ensino Médio 4 e passou a infância brincando na rua. “Não tinha tanto carro e violência. Era tudo tranquilo, e as amizades, fortes”, revela Elisabeth.

Aos 21 anos, Mariana Feijó Ximenes, neta de Manoel, vive uma Taguatinga agitada e com opções de lazer. “Temos muita infraestrutura, todo tipo de comércio. Dá para ir andando. Nasci e cresci aqui, gosto da cidade.” Ela, que trabalha com o avô há quatro anos, sente-se acolhida. “O meu avô sempre nos deu essa abertura. Sempre foi algo natural vir trabalhar na loja”, conclui.

 

Fonte: Correio Braziliense